O retorno do chá da tarde como experiência de bem-estar

Nos últimos anos, o afternoon tea voltou a ganhar destaque em cafés, hotéis e espaços culturais ao redor do mundo. Além de ser uma tradição resgatada, ele emerge como parte de um movimento contemporâneo mais amplo: a valorização do tempo, da presença e do bem-estar.

Em um cenário pós-pandemia, em que as relações sociais e o cotidiano foram profundamente reavaliados, rituais simples passaram a ocupar um novo espaço simbólico. Logo, o chá da tarde deixa de ser um hábito social e se transforma em uma experiência de reconexão.

Bem-estar e a busca por experiências com significado

O crescimento do wellness como estilo de vida

O conceito de wellness deixou de ser uma tendência para se consolidar como um estilo de vida global. Estudos recentes apontam que consumidores estão priorizando experiências que promovem saúde emocional, equilíbrio e qualidade de vida.

Segundo relatórios de mercado da Mintel, Euromonitor International e Grand View Research, há um crescimento consistente na demanda por produtos e experiências ligadas ao bem-estar, especialmente aqueles que unem sensorialidade, saúde e prazer.

Esse movimento impacta diretamente o consumo de bebidas funcionais, incluindo chás e infusões premium, que passam a ser percebidos como parte de rituais de autocuidado.

A origem do afternoon tea

O nascimento de um ritual na Inglaterra Vitoriana

O afternoon tea tem sua origem no século XIX e é tradicionalmente associado à Anna Maria Russell, Duquesa de Bedford.

Naquele período, a aristocracia britânica realizava apenas duas refeições principais ao dia: um desjejum tardio e um jantar servido no final da noite. Esse intervalo longo gerava uma sensação de fome no meio da tarde.

Foi nesse contexto que a Duquesa de Bedford passou a solicitar chá acompanhado de pequenos alimentos no meio da tarde, inicialmente como um hábito privado em seus aposentos.

Com o tempo, esse gesto íntimo evoluiu para encontros sociais restritos e, posteriormente, para uma prática adotada pela elite britânica.

As reuniões de afternoon tea passaram a acontecer em salões elegantes, com forte presença de etiqueta, estética e códigos sociais bem definidos. Elementos como:

     chás pretos encorpados (Assam, Darjeeling)

     sanduíches delicados sem casca

     scones com cremes e geleias

     porcelanas refinadas e prataria ajudaram a construir a identidade sensorial e visual do ritual.

Com a expansão do Império Britânico, o ritual se espalhou para outras regiões do mundo, sendo reinterpretado de acordo com diferentes culturas e ingredientes locais.

O que era um hábito aristocrático passou a ser ressignificado como uma experiência cultural de encontro e pausa, mantendo sua essência: o chá como eixo de convivência.

Hoje, o afternoon tea não pertence mais exclusivamente à aristocracia britânica, mas permanece como um dos rituais mais reconhecíveis da cultura global do chá.

Como o afternoon tea está sendo reinterpretado no mundo atual


1. Jovens e a nova relação com o consumo consciente

Uma mudança importante no comportamento do consumidor jovem é a redução do consumo de álcool e a busca por alternativas mais conscientes.

De acordo com pesquisas de comportamento de consumo globais, há uma tendência crescente de jovens adultos priorizando bebidas não alcoólicas em contextos sociais, substituindo coquetéis por opções como chás, infusões e bebidas funcionais.

Nesse cenário, o chá ganha relevância como uma bebida sofisticada, socialmente inclusiva e alinhada ao autocuidado.

2. A fusão entre arte, gastronomia e experiência sensorial

Outro movimento relevante é a integração entre gastronomia e experiências culturais.

Marcas e espaços premium vêm criando experiências híbridas, como:

     degustações de chá acompanhadas de arte

     oficinas de cerâmica com serviço de chá

     eventos culturais que unem gastronomia, design e bem-estar

Esse tipo de proposta reforça o chá como elemento de conexão entre diversos elementos do momento presente, elevando sua percepção para além da bebida.

3. Espaços que transformam o chá em ponto de encontro

Cafés, padarias autorais e casas de chá vêm reposicionando suas experiências para se tornarem mais do que pontos de passagem.

O afternoon tea contemporâneo é, muitas vezes, um pretexto para convivência intencional, um espaço onde o tempo desacelera e a interação ganha mais qualidade.

Esses ambientes refletem uma mudança estrutural no consumo urbano: menos pressa, mais experiência.

O chá como linguagem de presença e autocuidado

O crescimento do afternoon tea reflete uma mudança cultural profunda.

Vivemos um momento em que o cuidado consigo mesmo, o ritmo desacelerado e a valorização do presente se tornam centrais na forma como consumimos e nos relacionamos.

Na Arthé, compreendemos o chá como uma linguagem de presença, um convite ao autocuidado através da arte, da cultura e da sensorialidade.

Observar essa tendência florescer é, em muitos sentidos, testemunhar o renascimento de um ritual que sempre esteve ligado ao humano: o de pausar, respirar e estar presente.

 

Referências:

https://www.worldteanews.com/food-service-hospitality/why-afternoon-tea-having-moment-again?utm_medium=email&utm_source=nl&utm_campaign=WT-NL-World+Tea+News&oly_enc_id=5490E6308667G2J

https://www.britishmuseum.org/blog/tea-rific-history-victorian-afternoon-tea

https://www.historic-uk.com/CultureUK/Afternoon-Tea/

https://www.mintel.com/insights/food-and-drink/gen-z-sober-curious-generation/

https://www.euromonitor.com/newsroom/press-releases/october-2025/zebra-striping-trend-reshapes-drinking-habits-as-alcohol-market-flatlines-at-0.6-growth